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Imperfeito

Talvez a terapia resolva. Toda vez que alguém me pergunta algo sobre mim, eu desvio o assunto. Mesmo que quem pergunta seja a pessoa em quem mais confio. Dou graças a Deus (ainda que eu esteja meio distante Dele ultimamente) se estiver perto da TV: posso comentar as mil e uma tragédias diárias, os gays espancados e as juízas assassinadas. Não é que eu fuja da intimidade. Eu apenas desvio o olhar quando o centro sou eu. Por mais egocêntrico que me julguem, não gosto de ser o centro. Por que não veem isso pelo lado bom? Sou bom ouvinte… Parece tão imperfeito?

As palavras saem numa velocidade terrivelmente alta. É como se o mundo estivesse pra acabar e fosse a última coisa que eu escreveria. Nem tanto pela relevância, mais pela urgência de amenizar esse estrangulamento que às vezes surpreende. E leio depois, com medo de encontrar mais erros que acertos, e jogar tudo fora… outra vez. E acham tudo tão bonito e sensível. Parece tão imperfeito.

Eu não fui sempre assim. Apenas me acostumei a estar sozinho. Prefiro escrever a estar com a maior parte das pessoas que conheço. Já pisaram demais no meu coração quando o externei. Eu sou bom ouvinte porque me reconheço na dor. A mesma que só é compreendida, de fato, por raros: os verdadeiros dispostos a compreender. Pelo menos nas entrelinhas. Pareço tão imperfeito, mas quando digo: “vamos embora”, vamos.

Música que inspirou: Columbia – Imperfeito


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Indiferença

Seria só mais um para a minha coleção de sonhos bizarros. E eles estão cada vez mais raros. Aliás, todos os meus sonhos estão se perdendo.

Mas isso não é um lamento. Apenas sobre quando me tornei um demônio. Que andava sobre pedras em brasa, descalço, e nem sentia algum calor. A criança chorava com fome e não me comovia. Velhos davam seu último suspiro e eu nem mesmo me importava. Eu me incomodava mesmo era com uma estranha cauda que brotava da minha coluna vertebral e perfurava minha pele. Uma leve dor de cabeça anunciava: dois chifres mais clichês do que eu poderia imaginar. A transformação se completava. Orgásmico. Eu desfilava minha cauda, meus cornos e a indiferença sobre a suposta beleza pueril das criaturas terrestres. Bem, criaturas? Por quem? Quem estava mesmo por trás de todos aqueles seres medíocres que coabitavam esse lugarzinho?

Tropecei em minha própria arrogância e caí. Bati a cabeça no chão e quebrei um chifre. Desmaiei. Como pode alguém apagar em seu próprio sonho?

Meu cachorro latia. Em vez de mandá-lo se calar, eu sorri. Seu latido normalmente me irritava, mas ali senti uma vontade imensa de brincar com ele, de rolar no chão e vê-lo morder meu dedão do pé.

Sentei-me a beira da cama e percebi o frio do piso: que alegria sentir o chão gelado! Lembrei-me do namoro, que estava por um triz. Errei, e errei de novo. Errei feio e ela também. Senti-me mais que motivado a tentar de novo. Pensei até que, se não tivesse mais jeito, tudo bem. Agora, depois de muito tempo, eu estava disposto. A vida é boa e faz, faz diferença.

Música que inspirou: Móveis Coloniais de Acaju – Indiferença

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