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Sou de Áries, viu?

O que você pensa a respeito dessas coisas de Astrologia? Eu queria dizer que sou ariano, com ascendente em Câncer. Sabe o que isso pode dizer sobre mim? Pois é, fico pensando se eu me adaptei ao que li no jornaleco ou se a culpa é mesmo esotérica.

Os nativos do signo de Áries são impulsivos. As quase três décadas de vida me conceberam, segundo os psicólogos de plantão, um pouco de inteligência emocional. Deixando o jargão de lado, quer dizer que aprendi a me controlar. Mas nem tanto. Esse negócio de elemento fogo é uma coisa meio preocupante, segundo os mais entendidos.

Ainda que eu tenda a discordar do que não se vê, é fato: eu enjôo fácil, fácil das coisas. E pra não cair no tédio, às vezes eu saio do trilho. Não se aborreça quando faço da discussão séria, palhaçada.Eu me importo, juro. Já houve muitas vezes em que elas me olham com aquela carinha de quem acabou de presenciar um poltergeist: esse objeto voou mesmo ou só escorregou e estou vendo demais?; ele me ama ou está brincando comigo? Se as mulheres duvidam se solto um muxoxo ou gargalhada, que uma coisa fique clara: Eu nunca brinco com o coração alheio. Já disse “eu te amo” cedo demais… e era pra valer.

Dizem também que, a partir de uma certa idade, seu comportamento aproxima-se mais das características do signo ascendente. Quer dizer que sou quase um canceriano? Talvez eu seja mesmo bem emotivo. Eu já era antes? Uma amiga, estudiosa do assunto, diz que a combinação no meu horóscopo é digna de uma dupla sertaneja. Claro que eu adoro um carinho, podem até dizer que sou pegajoso… até entrar o tal do fogo: pra que lado isso vai? Para quem curte gente morna, sou uma péssima companhia. Como já diria o Apanhador Só: “peixeiro sem pegada é sushiman”. Pretensioso? Que se dane.

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Chorar por fora

Esqueça. Tudo que disseram para esquecer, esqueça. Todos as dicas são frases feitas se você não lembrar que, quando mais força se faz pra esquecer, mais acachapante é a tortura do pensamento presente. É fato: A história do conselheiro pode até parecer com a do aconselhado, mas a solução nunca será a mesma.

Os olhos parecem escorrer em 3D, de tanto que deslizam sobre a tela, que acende e apaga, acende e apaga. Nenhuma mensagem? E você vai esperar que alguém te chame a qualquer tempo nas redes sociais, assim pode ignorar esse machado mal afiado que dilacera aos pouquinhos, sem querer saber se o momento é oportuno. Incontáveis questionamentos se alguém se importa.

Se o pranto é ácido, ao menos dissolve a angústia. De tanto dizer que não vai mais chorar por fora, vai esquecendo de chorar. Diferente da regra vigente da cadeia, a punição do tempo é corretiva. O crime foi consumado, a história vai ficar como está. Os dois vão sumindo, um pro outro, pelo menos do jeito que se conhece. Todos ainda vão perguntar demais. Mas você vai chorar de menos.

Música que inspirou: Lucas Vasconcellos – Eu não vou chorar por fora

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Verdade Absoluta

Ninguém pode tirar seu direito de sofrer ou até se indignar… Só toma cuidado, não vá bater cartão em firma que não é a sua. De tudo que você errou na vida – e pode crer que errou – será que foi tudo erro seu? O amor de Julieta matou Romeu?

E aquela verdade absoluta que você sempre ouviu dizer (e acreditou), mas nunca procurou saber?

A você que leva fé em só no que está na bula, vai pra rua. Procure saber até de quem nunca procurou por você. Ou não. Faça o que quiser, viva o que quiser; tudo – glória e desgraça – vai e volta: “Boomerang blues”. A vida volta até depois do fim, não pense que todos os sorrisos de agora serão rios de boas lembranças. A mágoa vira névoa sobre a esperança. A verdade, às vezes, tem miopia. Quem quer ver o sol se por?

Música que inspirou: Autoramas – Verdade Absoluta

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Chorosa

É num dia desses que você acorda sem enxergar muito sentido. Por horas, fica muito escuro, não amanhece. Hoje, eu acordei com cem demônios brigando dentro de mim.

Ficou na noite anterior, aquela vontade de mudar o mundo, perdida em algum sonho – daqueles que você nunca se lembra ao acordar. Talvez o anjo da guarda – eu acredito nele – tenha virado um anjo caído, roubando todos os meus desejos de ser feliz.

Sobrou a voz que embarga, antes mesmo de sair. Sobrou o choro contido, que é o pior deles, pois pisoteia o coração. Fica um nó tão cego em volta do pescoço, que parece não perdoar o inevitável.

Até que invade a porta aquela canção de amor. Aquela que, parafraseando Leoni, me faz sorrir e perder a fala. A chorosa voz anuncia o pranto, libertador, transcendendo qualquer derrota (que veio, ou virá).

Parece bobo, já sei. Nada acalma melhor esses demônios que a música. É maior do que eu. Eu me vendo, eu me rendo aos seus primeiros acordes. Eu já me sinto melhor.

Música que inspirou: Cascadura – Chorosa

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Assassina Compulsiva

Ela não é exatamente boa, apesar de eu acreditar. Talvez se ache bonita. Alguns certamente devem achar, tantas são as histórias de flertes e conquistas.

Não faz assim tanto tempo que a conheço, porém posso dizer que descreveria sua alma como a uma vida inteira. Conheço a alma em sua essência e vejo o que muitos não veem. Pretensão? Percepção. Guarda um segredo cada vez mais difícil de esconder. Não sei bem se sente culpa, ou se sente bem. Será que não sente nada, ou simplesmente inventa uma verdade paralela? Cada um tem sua própria verdade, eu sei. A mesma que encontra um mínimo denominador comum: o bom senso.

Assassina compulsiva. Mata a quem lhe quer bem. Feriu a ferro e fogo suas velhas amizades (todas, uma por uma) em nome de um descontrole que acha tão justificável.

Mas que bela assassina ela se tornou. Encontrou um amor que ainda não matou. Não por falta de vontade ou tentativa, o amor persiste. Entre incontáveis escolhas ruins… Mas quem acerta mais do que erra, de verdade? Será esse tão compulsivo quanto seu desejo de matar?

Música que inspirou: O Terno – Zé Assassino Compulsivo

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Além do que se vê

Não tenho memória muito boa, minha infância às vezes um espaço em branco. Mas o amor? Este está tão vivo que posso tocá-lo. Está nas músicas que você que escuto aleatoriamente, e até na maneira como ando – até sozinho – pela rua: devagar, para que os passos se acompanhem. Está nos versos e parágrafos, com muito zelo para não amar demais. Porque apenas ele completa, por que o amor se encaixa. E o que mais doi na solidão não é a ausência dele, é a saudade mesmo, coisa que se confunde facilmente.

Às vezes, há Uma insegurança, um ciúme e o atrito fere que vira ódio. E eu sou daqueles que não consegue odiar a quem eu amo, então sobra pra mim. Aí eu penso: Se eu me odiar mais um pouco, explodo de amor próprio. Eu só me odeio porque me amo. Só que de um jeito vicioso, jocoso e miserável. Não, não é nada saudável, eu sei. Mas é cíclico: Na maior parte do tempo não sei sequer descrever o ódio, apenas seu co-irmão.

Dar uma volta pelas voltas que o mundo dá. Rir de tudo que me causa dor (é um desejo, um objetivo?). Se o mundo não girasse e tudo não doesse, não desfrutaria a cor. Quem nunca experimentou a sensação de perda, consegue imaginá-la, claro… Mas o caminho de volta é mais claro por quem já percorreu o de ida. E o amor está além do que se vê.

Música que inspirou: Cohen e Marcela – Além do que se vê (Los Hermanos)

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A verdade absoluta

Há quem confunda opinião com vaidade. Mesmo que a pessoa deixe claro não ser o dono da verdade! Há quem ouça só o que quer – e consegue – ouvir. E fala… deixa falar.

Muito além do direito de se expressar, está o de concordar que o que foi dito. O grande problema é que as pessoas estão cada vez mais reativas e qualquer palavra é um calcanhar de aquiles. Com o advento das redes sociais, constata-se uma profusão avassaladora do achismo: quando se tem opinião – que se diz soberana e incontestável – sobre um assunto o qual não domina.

Pior mesmo que a dificuldade acachapante de interpretação, é a ignorância oportunista. Entre as verdades absolutas uma destacável é “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Essa pode ser uma grande recíproca, pois o que o coração não sente – ou não quer sentir – os olhos são incapazes de processar. Então vê-se uma chuva de equívocos, em que ter opinião só pode significar falar mal e o fato de não gostar só pode ser recalque.

Fica abolido, desde já, o senso de humor, a coragem e o amor ao próximo. Sobra apenas esse mesmo “achismo” masturbatório, em troca de likes e retweets – o grande mal da classe média operária reacionária em que me incluo, ou tentam me incluir. Não tenho a resposta sobre tudo. Não acho mais nada. Ainda bem.

“Aos que me agridem com a arma mal temperada do anonimato, ofereço sorrindo a majestade olímpica do meu desprezo. Para domar essas panteras que por aí aprumam, tenho látego potente do meu sarcasmo nobre”, CAVACO, Carlos

Música que inspirou: Autoramas – Verdade Absoluta

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Quando eu descobri o carnaval

Todo mundo se apaixona, mesmo aqueles que nem pensavam nisso. Simplesmente porque é humano e está além da simples atração, que você tem a opção de refutar. E você se apaixona mais de uma vez, e até ama mais de uma vez. Fico incomodado quando  racionalizam demais esse negócio. Amor começa e acaba, sim, como extensão da própria existência.

Mas é fato que existem amores e amores. Se somos todos diferentes, a entrega e a compatibilidade são mesmo outras. Até porque, muda o seu par e, mesmo sem você perceber, mudou você também. Calejado por mágoas anteriores ou compartilhando a alegria que aprendeu a transmitir com o passar dos anos, você tem algumas ideias e opiniões formadas sobre como se comportar e o que pode fazer você ou aos outros felizes. Problema mesmo é quando vira regra única.  Falo isso com tal certeza qual, mesmo a galinha, já foi pinto, um dia. E, quando digo que existem amores e amores, é porque existem amores que são, de fato eternos, ainda que acabem. Não falo de amores platônicos, mas daqueles que quebram as suas verdades absolutas.

Passados alguns relacionamentos, pensei: não quero mais namorar. Só por um tempo. Eu, que sempre estive envolvido com alguém, estava de coração nu, achando que estava apenas fechado. Não tinha mais certeza a respeito do que sabia sobre o amor. Aí vem aquela pessoa, que só pode ser, no mínimo, rica de espírito e faz sua visão crescer numa dimensão totalmente inesperada. Aquela que faz você perceber que já amou antes e que fortalece o velho clichê “foi bom enquanto durou”, que nem sempre respeitamos. É aquela pessoa que, além de devolver o carnaval que é estar apaixonado, oferece os confetes e serpentinas para se sentir totalmente envolto nessa “folia”. Óbvio existe a quarta-feira de Cinzas, onde você percebe que não estava certo sobre tudo, mesmo tentando acertar. Então reluta, conversa e reaprende, pois finalmente que em todo luto há um recomeço. Eu levei 25 anos para finalmente cair na folia, até porque já sei que a quarta pode voltar a ser sexta.

-x-

Música que inspirou: Tibério Azul – Quando Maria me fundou o carnaval

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