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Carta a um velho amigo

No meio de tantas formas de começar uma carta para alguém, a palavra “Querido” se faz providencial quando se trata de um amigo. E se no meio de tudo, você já não se faz mais tão querido assim? Por muitos meses, eu venho tentado quebrar essa barreira do orgulho, jogando contra a parede o orgulho: se você não me procura, por que eu faria isso?

Primeiro, eu gostaria de dizer que por aqui vai tudo bem, distante amigo. Não leio mais os jornais. As notícias que me chegam são verdades tão provisórias que até sinto sua falta pra discutir essas loucuras do subterrâneo. Seu otimismo triste me confortava.

Os corpos balançando pela calçada vivem entregando que o mundo é pequeno demais. Demais mesmo, o que me deixa ainda mais puto ao me questionar por onde você anda, se vejo todo o tipo de gente  – principalmente os que não desejava encontrar – neste Rio de Janeiro. É o mesmo Rio? Sei lá, esses dias ouvi “morrer é apenas não ser mais vistos”.

Quase escrevi pra você da máquina de escrever. Não lembro como usar acentos e cedilhas por lá e, depois de tanto tempo, não queria parecer mais desleixado do que o costume. Lembra? Você sempre dizia que eu escrevia crônicas como poesia, justificando os devaneios de pontuação.

No meio do nada, a última garrafa de vinho secou, feito milagre. A mosca que rondava meu ouvido por horas a fio, até essa, parece ter cansado e, depois, descansado em algum prato de sopa. Sim, eu precisava do trocadilho porque adorávamos Raul Seixas. Já nem gosto tanto. Você ainda se sente muito sozinho? Enquanto escrevo, está aquele silêncio absoluto, sabe? Antes de tomar coragem pra lhe falar, abracei a calma como a lua abraça o escuro da noite. Finalmente estou calmo.

Lembro da nossa última conversa. Você perguntou o que era mais forte que o amor. Eu apenas acenava com a cabeça como se concordasse com a pergunta, mas com absoluto desinteresse em formular uma resposta. Era um dia nascente, já tínhamos bebido as cachaças de sempre, e você insistia com esse assunto. Esse papo me parecia tão distante. Pela primeira e última vez me senti tão diferente de você, amigo.

Você ainda é aquele grande sujeito? Apesar do nosso sumiço, mantenho o lema dos bêbados: “te considero pra caramba”. Engraçado como tudo ficou incrivelmente bem nessa última semana. Acho que foi porque eu encontrei algumas respostas, sabe? Nem te contei da terapia. Estou odiando, nunca gostei muito de falar de mim… mas a dúvida é uma corda invisível.

Botei uma música pra tocar, pra terminar esta carta logo. Parece Robertão das antigas e tem um verso bem a sua cara: “quando dormimos não somos ninguém”.

Como me despeço?

Música que inspirou: China – Distante Amigo

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Dinheiro

Quem não tem dinheiro, tem o que? Tudo custa, muito ou pouco.

Quem não tem dinheiro, não tem comida. Pode ter alguma ajuda, temporária, mas quem vive, bem, de ajuda?

Se não tem dinheiro, não tem casa. Dizem que dinheiro compra até amor verdadeiro, ainda que as controvérsias só permitam afirmar que, sem ele, não se paga um jantar. Não se paga um vestido, ao menos o tecido, a se conduzir ao altar.

Um mínimo de dinheiro, que seja, para se comprar companhia. Porque essa pode ser até barata, nunca de graça.

Aquele tanto que a realidade faça sorrir todo dia ao olhar no espelho. Bolso cheio não embeleza? Grana e fama: os tablóides adoram vender a felicidade travestida das celebridades.

Um pouco de dinheiro pra não se dormir sozinho. Na casa, cara como toda solidão, com a janela aberta por horas e horas. Espera alguém chegar.

No baú há de ser achado. Nada mais vai importar: a estrela renasce com grana. Dinheiro traz felicidade? Ele acalma e convida, pode morar.

Música que inspirou: Mombojó – Baú

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