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Chorar por fora

Esqueça. Tudo que disseram para esquecer, esqueça. Todos as dicas são frases feitas se você não lembrar que, quando mais força se faz pra esquecer, mais acachapante é a tortura do pensamento presente. É fato: A história do conselheiro pode até parecer com a do aconselhado, mas a solução nunca será a mesma.

Os olhos parecem escorrer em 3D, de tanto que deslizam sobre a tela, que acende e apaga, acende e apaga. Nenhuma mensagem? E você vai esperar que alguém te chame a qualquer tempo nas redes sociais, assim pode ignorar esse machado mal afiado que dilacera aos pouquinhos, sem querer saber se o momento é oportuno. Incontáveis questionamentos se alguém se importa.

Se o pranto é ácido, ao menos dissolve a angústia. De tanto dizer que não vai mais chorar por fora, vai esquecendo de chorar. Diferente da regra vigente da cadeia, a punição do tempo é corretiva. O crime foi consumado, a história vai ficar como está. Os dois vão sumindo, um pro outro, pelo menos do jeito que se conhece. Todos ainda vão perguntar demais. Mas você vai chorar de menos.

Música que inspirou: Lucas Vasconcellos – Eu não vou chorar por fora

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Chorosa

É num dia desses que você acorda sem enxergar muito sentido. Por horas, fica muito escuro, não amanhece. Hoje, eu acordei com cem demônios brigando dentro de mim.

Ficou na noite anterior, aquela vontade de mudar o mundo, perdida em algum sonho – daqueles que você nunca se lembra ao acordar. Talvez o anjo da guarda – eu acredito nele – tenha virado um anjo caído, roubando todos os meus desejos de ser feliz.

Sobrou a voz que embarga, antes mesmo de sair. Sobrou o choro contido, que é o pior deles, pois pisoteia o coração. Fica um nó tão cego em volta do pescoço, que parece não perdoar o inevitável.

Até que invade a porta aquela canção de amor. Aquela que, parafraseando Leoni, me faz sorrir e perder a fala. A chorosa voz anuncia o pranto, libertador, transcendendo qualquer derrota (que veio, ou virá).

Parece bobo, já sei. Nada acalma melhor esses demônios que a música. É maior do que eu. Eu me vendo, eu me rendo aos seus primeiros acordes. Eu já me sinto melhor.

Música que inspirou: Cascadura – Chorosa

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Assassina Compulsiva

Ela não é exatamente boa, apesar de eu acreditar. Talvez se ache bonita. Alguns certamente devem achar, tantas são as histórias de flertes e conquistas.

Não faz assim tanto tempo que a conheço, porém posso dizer que descreveria sua alma como a uma vida inteira. Conheço a alma em sua essência e vejo o que muitos não veem. Pretensão? Percepção. Guarda um segredo cada vez mais difícil de esconder. Não sei bem se sente culpa, ou se sente bem. Será que não sente nada, ou simplesmente inventa uma verdade paralela? Cada um tem sua própria verdade, eu sei. A mesma que encontra um mínimo denominador comum: o bom senso.

Assassina compulsiva. Mata a quem lhe quer bem. Feriu a ferro e fogo suas velhas amizades (todas, uma por uma) em nome de um descontrole que acha tão justificável.

Mas que bela assassina ela se tornou. Encontrou um amor que ainda não matou. Não por falta de vontade ou tentativa, o amor persiste. Entre incontáveis escolhas ruins… Mas quem acerta mais do que erra, de verdade? Será esse tão compulsivo quanto seu desejo de matar?

Música que inspirou: O Terno – Zé Assassino Compulsivo

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Um adeus de metrô

Os olhos inchados e profundos já entregavam uma noite mal dormida e lágrimas antes de sentar-se ao meu lado para esperar metrô. Lágrimas aquelas que eu tinha visto minutos atrás, quando o sol escancarava aquela situação pré-estação subterrânea.
Ela era linda. Apenas isso, como se pudesse ser apenas linda. O cabelo preso em rabo de cavalo e a ausência de maquiagem, apesar de bem vestida, entregavam alguma pressa ao sair. Cruzávamos a avenida quando percebi que ela secava os olhos. E aquilo partiu meu coração, como se tivesse visto uma criança com fome. Eu só pensava em falar com ela, porque sinto que preciso ajudar. Mas o medo de ser inconveniente prevaleceu.

Já ao meu lado, dentro da estação, ela apenas me olhou e respirou fundo. Ela tinha hematoma nos braços, como se a tivessem apertado com força. A garota ensaiou um riso, num esforço descomunal em ser simpática. De alguma forma, eu sabia que, o que quer que fosse, tinha acabado instantes atrás. Estava feito. Abaixou a cabeça e subitamente me dirigiu: “Não se assuste, foi só um adeus. Um casamento lindo virou um adeus. O conforto do abraço… Um abraço e acabou”. Passou o primeiro trem, ela chegou a levantar e sentou novamente. Então, o pranto desabou. Segurou minha mão e viu minha aliança: “Seja o que for, converse. Assuma seus erros e faça com que seu pensamento não se confunda.”. Eu não entendia direito. Não abri a boca um minuto sequer. Mas sinto que foi o suficiente, e compensou a falta de coragem do lado de fora. Ali se juntavam os estilhaços de um coração, preparando-se para seguir em frente. E eu tenho um pouco a conversar.

Música que inspirou: Tatá Aeroplano – Te desejo mas te refuto

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