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Orelhas

No último sábado, acordei decidido a cortar minhas orelhas. Não os pulsos, ou até os tornozelos, como fazem os deprimidos contumazes. Por que não? Ia arder um pouco, sangrar mais um pouco e meu desejo estaria satisfeito.

Eu ainda estava um pouco sonolento e a ressaca da noite anterior era tão forte que não consegui ir até a cozinha. Por sorte, veja só!, o estilete que usei para abrir uma encomenda estava ali no chão. Sentei à beira da cama, estendi a lâmina e comecei. À minha frente, um par de tênis bem castigados parecia me julgar. Interrompi abruptamente, mas um pouco de sangue já se misturava à barba. Sabia, ali, que não ia morrer de hemorragia por um corte na orelha. Imediatamente, fui ao banheiro e saquei um rolo de papel higiênico. Sim, se não há um mísero quilo de arroz na despensa, porque eu teria gazes e essas coisas que compõem o antes obrigatório kit de primeiros socorros.

De volta ao quarto, percebo os pingos vermelhos pelo chão já sujo por outros respingos sem identificação. Eu precisava ir à emergência. Não era um caso grave, mas a lâmina estava um pouco enferrujada; teria que tomar aquelas vacinas que nunca precisei quando criança. Aqueles tênis, que antes me julgavam, agora me rejeitavam. Guardo meus sapatos – e por sapatos incluo de tênis a butes – num vão do armário, e todos estavam igualmente desgastados. Do espelho, percebia que não estava tão mal. Mas meus sapatos, de todos os tipos, estavam igualmente decadentes: uns com a sola completamente lisa, outro sem nenhum verniz… Nunca havia me dado conta. Eles envelhecem tão mais rápido que eu! Consumido pela vergonha, fui à clínica mais próxima de chinelos. E eu sempre achei errado ir ao médico de chinelos.

Era sábado de manhã e foi difícil pegar um táxi, ainda mais segurando um pedaço de papel ensanguentado.  Ao conseguir chegar, uns poucos bêbados terminavam de tomar soro nas veias. O doutor nem me olhou nos olhos, mas me mandou tomar umas injeções ali mesmo, imediatamente. Na orelha, nem pontos, um mero curativo – com gazes – foi o suficiente.

Na volta, veio à lembrança que o holandês van Gogh já havia cometido a mesma proeza, presenteando a uma amiga prostituta com um pedaço de sua cartilagem. Aos 37 anos, ele se matou. Já passei daquela idade mítica de morrer aos 27 – como acontece com as lendas do rock – e ainda me falta um bocado para imitar, de outra forma, o pintor. Mas os meus sapatos… esses me preocupam bastante.

Música que inspirou: Apanhador Só – Cartão Postal

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