A verdade absoluta

Há quem confunda opinião com vaidade. Mesmo que a pessoa deixe claro não ser o dono da verdade! Há quem ouça só o que quer – e consegue – ouvir. E fala… deixa falar.

Muito além do direito de se expressar, está o de concordar que o que foi dito. O grande problema é que as pessoas estão cada vez mais reativas e qualquer palavra é um calcanhar de aquiles. Com o advento das redes sociais, constata-se uma profusão avassaladora do achismo: quando se tem opinião – que se diz soberana e incontestável – sobre um assunto o qual não domina.

Pior mesmo que a dificuldade acachapante de interpretação, é a ignorância oportunista. Entre as verdades absolutas uma destacável é “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Essa pode ser uma grande recíproca, pois o que o coração não sente – ou não quer sentir – os olhos são incapazes de processar. Então vê-se uma chuva de equívocos, em que ter opinião só pode significar falar mal e o fato de não gostar só pode ser recalque.

Fica abolido, desde já, o senso de humor, a coragem e o amor ao próximo. Sobra apenas esse mesmo “achismo” masturbatório, em troca de likes e retweets – o grande mal da classe média operária reacionária em que me incluo, ou tentam me incluir. Não tenho a resposta sobre tudo. Não acho mais nada. Ainda bem.

“Aos que me agridem com a arma mal temperada do anonimato, ofereço sorrindo a majestade olímpica do meu desprezo. Para domar essas panteras que por aí aprumam, tenho látego potente do meu sarcasmo nobre”, CAVACO, Carlos

Música que inspirou: Autoramas – Verdade Absoluta

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Quando eu descobri o carnaval

Todo mundo se apaixona, mesmo aqueles que nem pensavam nisso. Simplesmente porque é humano e está além da simples atração, que você tem a opção de refutar. E você se apaixona mais de uma vez, e até ama mais de uma vez. Fico incomodado quando  racionalizam demais esse negócio. Amor começa e acaba, sim, como extensão da própria existência.

Mas é fato que existem amores e amores. Se somos todos diferentes, a entrega e a compatibilidade são mesmo outras. Até porque, muda o seu par e, mesmo sem você perceber, mudou você também. Calejado por mágoas anteriores ou compartilhando a alegria que aprendeu a transmitir com o passar dos anos, você tem algumas ideias e opiniões formadas sobre como se comportar e o que pode fazer você ou aos outros felizes. Problema mesmo é quando vira regra única.  Falo isso com tal certeza qual, mesmo a galinha, já foi pinto, um dia. E, quando digo que existem amores e amores, é porque existem amores que são, de fato eternos, ainda que acabem. Não falo de amores platônicos, mas daqueles que quebram as suas verdades absolutas.

Passados alguns relacionamentos, pensei: não quero mais namorar. Só por um tempo. Eu, que sempre estive envolvido com alguém, estava de coração nu, achando que estava apenas fechado. Não tinha mais certeza a respeito do que sabia sobre o amor. Aí vem aquela pessoa, que só pode ser, no mínimo, rica de espírito e faz sua visão crescer numa dimensão totalmente inesperada. Aquela que faz você perceber que já amou antes e que fortalece o velho clichê “foi bom enquanto durou”, que nem sempre respeitamos. É aquela pessoa que, além de devolver o carnaval que é estar apaixonado, oferece os confetes e serpentinas para se sentir totalmente envolto nessa “folia”. Óbvio existe a quarta-feira de Cinzas, onde você percebe que não estava certo sobre tudo, mesmo tentando acertar. Então reluta, conversa e reaprende, pois finalmente que em todo luto há um recomeço. Eu levei 25 anos para finalmente cair na folia, até porque já sei que a quarta pode voltar a ser sexta.

-x-

Música que inspirou: Tibério Azul – Quando Maria me fundou o carnaval

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Não se vá

Eu não sou exatamente um especialista em relacionamentos, como se diz por aí. Não sei muita coisa de psicologia e meu currículo é o poder de observação. Eu sei e gosto de ouvir, ainda que interrompa a conversa diversas vezes, por dispersão. Sei que as pessoas sempre me procuram para conversar e gostam do que digo, pela minha sinceridade.

Naturalmente, nem sempre consigo ser transparente. Sei bem o quanto a verdade pode doer. A minha, quase ninguém sabe, eu guardo. Por isso gosto tanto que me procurem, pois admiro a coragem que meus próximos tem para abrir seus corações. Um exemplo para paradigmas se preparando a quebrar diante da minha resistência.

Só penso que, às vezes, mesmo que eu não seja um corajoso para falar de mim, gostaria que me ouvissem mais e não me interrompessem para falar de suas vidas quando as procuro. Seria bem melhor se realmente não só demonstrassem, que sejam tão interessadas como sou.

Tudo que ressaltei antes é importante para sobre o que breve assunt: um amigo em específico, que preservo seu nome. Uma boa pessoa, eu diria, mas com potencial para ser fantástica. Meu amigo, infelizmente, é aquele tipo que erra demais, exagera na dose. Você fica tão preocupado em confortá-lo, tornar menos doloroso que, por dias, a raiva se oculta e você esquece que foi ele quem cometeu o erro. Ele quem gritou e magoou e, então, a culpa lhe recai.

Só que ele sabe ouvir. E discute comigo sem se distanciar. Julga com propriedade, baseado até nos seus próprios erros. Ao mesmo tempo em que ele, na hora não admita, pede desculpas e ajuda a dar a volta por cima. Saiba, amigo… não sei ainda se te perdoo. A gente não esquece tudo de uma vez, essa é a verdade. Ainda assim, espero que você não se vá.

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Sonho de Garoto

Sabe quando você não acorda desse sonho nunca? Porque você acorda e não desperta. Perde a pose, a frieza de forma tão natural que só parece estar sonhando. Quando você vê pela tela e pela janela as histórias de amor e todas parecem tão bonitas, mas tão diferentes da sua.

Tenho certeza de que já amei antes. Não sou daqueles que aceitam o clichê de “se não era eterno, não era amor”. Amor é muito mais do que isso para se limitar a frases feitas. Mas se tem uma coisa que não sei – mesmo – explicar, é o hoje. Hoje parece amor e algo mais. Um algo mais cheio de frases feitas, de clichês e eternidades. Algo mais, só de olhar nos olhos e fazer planos para o ano que vem e os seguintes.

Apenas sei que o que sinto me guia e me faz correr. Insegurança? Quem nunca? Se pesa, arrumo um jeito de ficar, logo, leve. Porque me tira do chão e me coloca de novo, assim, sem machucar, sem queda. Eu me perco e me encontro todos os dias. É mais fácil estar neste amor. E eu só preciso ser eu mesmo, ainda que, às vezes, só um garoto.

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Imperfeito

Talvez a terapia resolva. Toda vez que alguém me pergunta algo sobre mim, eu desvio o assunto. Mesmo que quem pergunta seja a pessoa em quem mais confio. Dou graças a Deus (ainda que eu esteja meio distante Dele ultimamente) se estiver perto da TV: posso comentar as mil e uma tragédias diárias, os gays espancados e as juízas assassinadas. Não é que eu fuja da intimidade. Eu apenas desvio o olhar quando o centro sou eu. Por mais egocêntrico que me julguem, não gosto de ser o centro. Por que não veem isso pelo lado bom? Sou bom ouvinte… Parece tão imperfeito?

As palavras saem numa velocidade terrivelmente alta. É como se o mundo estivesse pra acabar e fosse a última coisa que eu escreveria. Nem tanto pela relevância, mais pela urgência de amenizar esse estrangulamento que às vezes surpreende. E leio depois, com medo de encontrar mais erros que acertos, e jogar tudo fora… outra vez. E acham tudo tão bonito e sensível. Parece tão imperfeito.

Eu não fui sempre assim. Apenas me acostumei a estar sozinho. Prefiro escrever a estar com a maior parte das pessoas que conheço. Já pisaram demais no meu coração quando o externei. Eu sou bom ouvinte porque me reconheço na dor. A mesma que só é compreendida, de fato, por raros: os verdadeiros dispostos a compreender. Pelo menos nas entrelinhas. Pareço tão imperfeito, mas quando digo: “vamos embora”, vamos.

Música que inspirou: Columbia – Imperfeito


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Indiferença

Seria só mais um para a minha coleção de sonhos bizarros. E eles estão cada vez mais raros. Aliás, todos os meus sonhos estão se perdendo.

Mas isso não é um lamento. Apenas sobre quando me tornei um demônio. Que andava sobre pedras em brasa, descalço, e nem sentia algum calor. A criança chorava com fome e não me comovia. Velhos davam seu último suspiro e eu nem mesmo me importava. Eu me incomodava mesmo era com uma estranha cauda que brotava da minha coluna vertebral e perfurava minha pele. Uma leve dor de cabeça anunciava: dois chifres mais clichês do que eu poderia imaginar. A transformação se completava. Orgásmico. Eu desfilava minha cauda, meus cornos e a indiferença sobre a suposta beleza pueril das criaturas terrestres. Bem, criaturas? Por quem? Quem estava mesmo por trás de todos aqueles seres medíocres que coabitavam esse lugarzinho?

Tropecei em minha própria arrogância e caí. Bati a cabeça no chão e quebrei um chifre. Desmaiei. Como pode alguém apagar em seu próprio sonho?

Meu cachorro latia. Em vez de mandá-lo se calar, eu sorri. Seu latido normalmente me irritava, mas ali senti uma vontade imensa de brincar com ele, de rolar no chão e vê-lo morder meu dedão do pé.

Sentei-me a beira da cama e percebi o frio do piso: que alegria sentir o chão gelado! Lembrei-me do namoro, que estava por um triz. Errei, e errei de novo. Errei feio e ela também. Senti-me mais que motivado a tentar de novo. Pensei até que, se não tivesse mais jeito, tudo bem. Agora, depois de muito tempo, eu estava disposto. A vida é boa e faz, faz diferença.

Música que inspirou: Móveis Coloniais de Acaju – Indiferença

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Domingo do Diabo

Samuel adorava a praia. Tanto que já recusou propostas de trabalho em São Paulo pelo simples fato de não poder jogar seu vôlei na areia dos domingos de manhã. Adorava nadar. Só não ia se estivesse chovendo, sempre tomou muito cuidado. Sempre soube que mar e chuva não eram uma boa combinação.

Rita não gostava tanto de mar. Claro que ela gostava de beber uma água de coco para refrescar diante daquele visual exuberante. Mas depois de 7 anos de casados, ela já não acompanhava Samuel com tanta frequência nas idas ao Arpoador. Muitas vezes, quando ela acordava, o café já estava passado e o lado da cama, vazio.

E foi num domingo de manhã bem cedo, quando o sol ainda nem tinha saído, que ele seguiu à Pedra do Diabo. Quando o sol já se punha, ele não retornava a casa. Samuel nunca levava o celular se ela não o acompanhasse. Dizia que não tinha quem tomasse conta. Rita olhava o celular sobre o balcão e o coração apertava. Por que a demora? Olhando o celular do marido, viu que tinha um bilhete embaixo – AMO VOCÊ – escrito em letra de forma. Foi então que ela resolveu procurá-lo. Em vão.

Passaram-se dias, quando o tenente Fábio, amigo do casal, ligou numa manhã chuvosa. Encontraram Samuel. Encontraram o corpo de Samuel. Segundo o amigo, pela fratura no crânio, ele pode ter escorregado da pedra antes de mergulhar. Ou até ter se chocado enquanto nadava…

Por dias, Rita não assimilou isso. No velório, ela estava em choque. O que ele mais gostava de fazer tirou sua vida. O mar carregou seu amor e junto, seu coração. Passaram-se semanas e Rita não voltou ao trabalho. Meses depois, não tinha mais notícias dela.

Já se foram dois anos e domingo passado resolvi ir à praia. Ao Arpoador, para variar. Na mesma Pedra do Diabo encontrei Rita. Sozinha, visivelmente envelhecida. Sentei ao seu lado, ela não me reconheceu. Com os olhos vermelhos, escrevia num papel, que consegui ler antes dela lançá-lo ao mar.

Enquanto meus pés não tocam o chão, eu vôo por entre nuvens densas. Vou me guiando pela distância que mantenho de você. Foi bom ter você em meus braços. Sua ausência continua escrevendo a minha história. Pois se contratempos nos afastaram, a saudade ainda nos mantém unidos… eternamente.

Então, ela levantou, foi embora e não olhou pra trás.

Música que inspirou: Vanguart – O Mar (Dorival Caymmi)

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Aqui

De vez em quando acordo nostálgico. Nos dias em que me sinto sozinho (mesmo que eu não esteja, de fato, sozinho), busco alguma segurança nas mais vagas lembranças. Principalmente porque tenho um irmão e hoje já não somos mais tão amigos como antes.

Lembro quando fingimos que ele tinha morrido: eu o cobri com jornal na calçada do prédio em que morávamos. Gritava “Socorro, mataram meu irmão!”. E quando a casa foi assaltada de mentira, só enquanto minha mãe foi revelar umas fotos… uma série de efeitos sonoros pelo telefone.

Aqui, não estamos tão longe um do outro. Mas cada vez nos falamos menos e isso me assusta. Tenho medo de que ele faça alguma coisa muito errada e eu não esteja lá pra ajudar, como antigamente. Eu sou o irmão mais velho – e há muito tempo ele é bem mais alto do que eu. Eu sempre o defendia. Até mesmo contra nossa mãe.

Daqui, espero que ele cuide bem do que ele é, pelo que ainda vai se tornar. Que ele lembre sempre do que aprendemos juntos. A distância física – e até afetiva – me faz perceber como é bom quando, ao nos reencontrarmos, ver que bom continua seu coração.

Por aí, rimos sempre um do outro. E com o outro. Ninguém no mundo me entende melhor. No copo ou no braço. No tapa e no beijo. Não há de quem eu me orgulhe mais. Nada vai mudar isso, por mais que mudemos a cada dia.

Música que inspirou: Tulipa Ruiz – Aqui

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Na dela

Deixa ser, deixa viver. Eu repito isso como um mantra.

– Me traga sete limões, quatro laranjas e três maçãs. E não se esqueça das duas cebolas.

De começo eu me assustava. E sempre errava na quantidade.

Deixa ser, deixa viver. Eu tenho que repetir sempre. Eu chegava em casa com um limão a mais (ou uma laranja a menos) e era recebido com um “tudo bem”. Enlouquecia na calmaria! Eu a observava passar a manteiga no pão exatamente três vezes em cada fatia. As mesmas cinco gotas de adoçante. E me perdia no meio de tanta precisão.

Engraçado que me lembro exatamente da fila do banco. Eu tentava organizar os mil e um boletos e seu perfume suave me prendeu.  Olhava de cima a baixo. Como podia ser uma garota tão delicada e discreta e ainda assim despertar todo aquele desejo que me vinha no momento? Não é para a bunda que se olha primeiro? Eu olhava para os cabelos, deslizando como pequenas ondas enquanto ela trocava sua pasta de mão. Eu olhava a sua blusa e tentava… nem sei bem o que tentava.

Tirei o relógio do pulso e guardei no bolso da calça. Só pra lhe perguntar as horas. Com um leve toque em seus ombros, fui respondido com um sorriso gentil, bem do jeito que eu imaginava. Mas como ela podia estar tranquila com aquele ar condicionado quebrado e a fila que não andava? Com aquela criança chorando logo a frente… Quando fui perguntar seu nome, ela foi atendida. E eu, como era o próximo, acabei permitindo que ela se fosse.

Mas não é que naquele mesmo dia ela foi à minha loja comprar duas canetas? Tentei de tudo antes de ficar chato. Mas ela voltou no dia seguinte, e no próximo, sempre com alguma coisa nova a se comprar. Foram 7 meses, segundo ela, até morarmos juntos.

– Me traga sete limões, quatro laranjas e três maçãs. E não se esqueça das duas cebolas.

Odeio quando faz da nossa casa uma ciência exata. Às vezes fico torcendo que ela se canse de mim. Uns dias exagero na cachaça. Será que ela não se abala por nada? Fiquei feliz quando a vi bebendo vodka escondido. Há dias em que eu só queria que ela se arrependesse de mim, que me trancasse no porão. Mas eu me arrependo, não sei se ela também. E todo dia ela se deita às 11 da noite e me dá um beijo quente. Três vezes por semana nós fazemos amor. Aí me lembro como fui cair na dela.

Música que inspirou: Cris Moura – Na sua (Pepe Donato)

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Na sala de espera do paraíso

Ela cruzou a sala de audiência, acompanhada de seu novo advogado. Seu novo namorado. Estava tudo pronto para o divórcio. Aindo guardo com muita mágoa a acusação de agressão. Lembro do dia em que chegou a intimação. Estava comemorando meu aniversário – o primeiro sem ela – quando recebo a ilustre visita do oficial de justiça. Com os olhos prestes a desabar um rio de lágrimas, pedi que todos se retirassem…

É impossível olhar pra ela e não lembrar da festa surpresa que me preparou quando ainda nem namorávamos. Impossível esquecer quando ela entonou com sua doce, mesmo que desafinada, voz a canção “Os outros”, sucesso do Kid Abelha. Por muito tempo eu acreditei que, depois de mim, os outros eram mesmo os outros, e só.

Lembro-me de uma pesquisa que li na internet, comprovando que, por natureza, os homens são poligâmicos. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, eu jurei não fazer parte dessas estatísticas. Eu gostava de diariamente, reafirmar o que eu sentia – e sinto – por ela. Gostava de fazer com que ela se sentisse importante. Quando não sabia fazê-lo com carinhos, comprava presentes. E como ela gosta de tiaras de ouro e anéis de brilhantes… Sorrisos que custavam caro.

Quando completei 3 anos na empresa, resolveram comemorar. Sempre fui muito querido no ambiente de trabalho. Ao convidá-la, trocou a festa da empresa pelo penúltimo capítulo da novela. Nem mostrei-lhe seu novo vestido, que comprei para a ocasião. Prometi vingança, bebi mais do que deveria. Todos os drinks, dos mais diversos nomes, ocuparam meus copos, para amenizar a frustração de sua ausência. Ao fim da festa, chamaram um táxi para que me levasse de volta. Quando eu cheguei, o motorista já tinha recebido dos meus colegas, mas ainda assim dei mais do que o convencional de gorjeta.

Com alguma dificuldade, abri a porta, afrouxei a gravata e tirei os sapatos. Atravessei o hall do apartamento. Quem era aquele desconhecido ocupando meu lugar na cama? Bati a porta do quarto com muita violência. Ouvi seu grito. Sentei no sofá da sala e deu para ouvir a porta se abrindo. Quando ela veio ao meu encontro, empurrei-a com raiva. Só vi quando caiu sobre a mesa de centro e cortou o braço no vidro do tampo, estilhaçado no meio do ódio, lágrimas e sangue, muito sangue. Ainda fiquei alguns segundos diante daquela cena, onde o desespero bruscamente havia tomado conta de mim.
Sem calçar os sapatos, saí com a mesma roupa que cheguei. O elevador demorou muito mais do que o normal, e desci correndo as escadas desde o sétimo andar. Fiz sinal para o táxi e fui para a casa da minha mãe, onde fiquei.

Há 10 semanas descobri que tenho câncer. Aqueles sinais em meu ombro, que ela gostava de contar enquanto tomávamos banho, agora são um melanoma em estágio avançado. Há alguns dias estou nesta clínica, no subúrbio do Rio de Janeiro. Do meu quarto, no segundo andar, escuto todos os tipos de barulho. Desde os carros velhos, com seus motores desregulados, ao trem passando e os cachorros revirando o lixo. Há dias não sei o que é dormir. Passo as noites observando cada gota do soro, que gradualmente ocupa meu corpo.

Pedi à equipe médica para não autorizar a visita de ninguém. Não quero que me vejam assim. Não quero que sintam pena. Eu, que sempre gostei de fazer as pessoas felizes… Ao mesmo tempo, só quero vê-la… Não, não quero. Não posso.
A enfermeira veio ao quarto avisar-me que há um grupo de pessoas querendo me ver. Disse que houve muita insistência. Entre eles, está ela. Digo não. Por favor, não. Deixem-me em paz. Deixe-a esperando, com seus amigos, na sala de espera do paraíso.

Música que inspirou: LeoniNa sala de espera do paraíso (Frejat/Luciana Fregolente/Leoni)

PS: Disponível também para download no site do cantor  em e-book muito bem elaborado, como prêmio por vencer um concurso em 2008. Cadastre-se e faça download (em baixa ou alta resolução)

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