Arquivo da categoria: Apanhador Só

Sou de Áries, viu?

O que você pensa a respeito dessas coisas de Astrologia? Eu queria dizer que sou ariano, com ascendente em Câncer. Sabe o que isso pode dizer sobre mim? Pois é, fico pensando se eu me adaptei ao que li no jornaleco ou se a culpa é mesmo esotérica.

Os nativos do signo de Áries são impulsivos. As quase três décadas de vida me conceberam, segundo os psicólogos de plantão, um pouco de inteligência emocional. Deixando o jargão de lado, quer dizer que aprendi a me controlar. Mas nem tanto. Esse negócio de elemento fogo é uma coisa meio preocupante, segundo os mais entendidos.

Ainda que eu tenda a discordar do que não se vê, é fato: eu enjôo fácil, fácil das coisas. E pra não cair no tédio, às vezes eu saio do trilho. Não se aborreça quando faço da discussão séria, palhaçada.Eu me importo, juro. Já houve muitas vezes em que elas me olham com aquela carinha de quem acabou de presenciar um poltergeist: esse objeto voou mesmo ou só escorregou e estou vendo demais?; ele me ama ou está brincando comigo? Se as mulheres duvidam se solto um muxoxo ou gargalhada, que uma coisa fique clara: Eu nunca brinco com o coração alheio. Já disse “eu te amo” cedo demais… e era pra valer.

Dizem também que, a partir de uma certa idade, seu comportamento aproxima-se mais das características do signo ascendente. Quer dizer que sou quase um canceriano? Talvez eu seja mesmo bem emotivo. Eu já era antes? Uma amiga, estudiosa do assunto, diz que a combinação no meu horóscopo é digna de uma dupla sertaneja. Claro que eu adoro um carinho, podem até dizer que sou pegajoso… até entrar o tal do fogo: pra que lado isso vai? Para quem curte gente morna, sou uma péssima companhia. Como já diria o Apanhador Só: “peixeiro sem pegada é sushiman”. Pretensioso? Que se dane.

1 comentário

Arquivado em Apanhador Só

Orelhas

No último sábado, acordei decidido a cortar minhas orelhas. Não os pulsos, ou até os tornozelos, como fazem os deprimidos contumazes. Por que não? Ia arder um pouco, sangrar mais um pouco e meu desejo estaria satisfeito.

Eu ainda estava um pouco sonolento e a ressaca da noite anterior era tão forte que não consegui ir até a cozinha. Por sorte, veja só!, o estilete que usei para abrir uma encomenda estava ali no chão. Sentei à beira da cama, estendi a lâmina e comecei. À minha frente, um par de tênis bem castigados parecia me julgar. Interrompi abruptamente, mas um pouco de sangue já se misturava à barba. Sabia, ali, que não ia morrer de hemorragia por um corte na orelha. Imediatamente, fui ao banheiro e saquei um rolo de papel higiênico. Sim, se não há um mísero quilo de arroz na despensa, porque eu teria gazes e essas coisas que compõem o antes obrigatório kit de primeiros socorros.

De volta ao quarto, percebo os pingos vermelhos pelo chão já sujo por outros respingos sem identificação. Eu precisava ir à emergência. Não era um caso grave, mas a lâmina estava um pouco enferrujada; teria que tomar aquelas vacinas que nunca precisei quando criança. Aqueles tênis, que antes me julgavam, agora me rejeitavam. Guardo meus sapatos – e por sapatos incluo de tênis a butes – num vão do armário, e todos estavam igualmente desgastados. Do espelho, percebia que não estava tão mal. Mas meus sapatos, de todos os tipos, estavam igualmente decadentes: uns com a sola completamente lisa, outro sem nenhum verniz… Nunca havia me dado conta. Eles envelhecem tão mais rápido que eu! Consumido pela vergonha, fui à clínica mais próxima de chinelos. E eu sempre achei errado ir ao médico de chinelos.

Era sábado de manhã e foi difícil pegar um táxi, ainda mais segurando um pedaço de papel ensanguentado.  Ao conseguir chegar, uns poucos bêbados terminavam de tomar soro nas veias. O doutor nem me olhou nos olhos, mas me mandou tomar umas injeções ali mesmo, imediatamente. Na orelha, nem pontos, um mero curativo – com gazes – foi o suficiente.

Na volta, veio à lembrança que o holandês van Gogh já havia cometido a mesma proeza, presenteando a uma amiga prostituta com um pedaço de sua cartilagem. Aos 37 anos, ele se matou. Já passei daquela idade mítica de morrer aos 27 – como acontece com as lendas do rock – e ainda me falta um bocado para imitar, de outra forma, o pintor. Mas os meus sapatos… esses me preocupam bastante.

Música que inspirou: Apanhador Só – Cartão Postal

2 Comentários

Arquivado em Apanhador Só