Na dela

Deixa ser, deixa viver. Eu repito isso como um mantra.

– Me traga sete limões, quatro laranjas e três maçãs. E não se esqueça das duas cebolas.

De começo eu me assustava. E sempre errava na quantidade.

Deixa ser, deixa viver. Eu tenho que repetir sempre. Eu chegava em casa com um limão a mais (ou uma laranja a menos) e era recebido com um “tudo bem”. Enlouquecia na calmaria! Eu a observava passar a manteiga no pão exatamente três vezes em cada fatia. As mesmas cinco gotas de adoçante. E me perdia no meio de tanta precisão.

Engraçado que me lembro exatamente da fila do banco. Eu tentava organizar os mil e um boletos e seu perfume suave me prendeu.  Olhava de cima a baixo. Como podia ser uma garota tão delicada e discreta e ainda assim despertar todo aquele desejo que me vinha no momento? Não é para a bunda que se olha primeiro? Eu olhava para os cabelos, deslizando como pequenas ondas enquanto ela trocava sua pasta de mão. Eu olhava a sua blusa e tentava… nem sei bem o que tentava.

Tirei o relógio do pulso e guardei no bolso da calça. Só pra lhe perguntar as horas. Com um leve toque em seus ombros, fui respondido com um sorriso gentil, bem do jeito que eu imaginava. Mas como ela podia estar tranquila com aquele ar condicionado quebrado e a fila que não andava? Com aquela criança chorando logo a frente… Quando fui perguntar seu nome, ela foi atendida. E eu, como era o próximo, acabei permitindo que ela se fosse.

Mas não é que naquele mesmo dia ela foi à minha loja comprar duas canetas? Tentei de tudo antes de ficar chato. Mas ela voltou no dia seguinte, e no próximo, sempre com alguma coisa nova a se comprar. Foram 7 meses, segundo ela, até morarmos juntos.

– Me traga sete limões, quatro laranjas e três maçãs. E não se esqueça das duas cebolas.

Odeio quando faz da nossa casa uma ciência exata. Às vezes fico torcendo que ela se canse de mim. Uns dias exagero na cachaça. Será que ela não se abala por nada? Fiquei feliz quando a vi bebendo vodka escondido. Há dias em que eu só queria que ela se arrependesse de mim, que me trancasse no porão. Mas eu me arrependo, não sei se ela também. E todo dia ela se deita às 11 da noite e me dá um beijo quente. Três vezes por semana nós fazemos amor. Aí me lembro como fui cair na dela.

Música que inspirou: Cris Moura – Na sua (Pepe Donato)

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8 Comentários

Arquivado em Cris Moura, Pepe Donato

8 Respostas para “Na dela

  1. Uau!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Que massa, bro!
    Demais!
    É um belo presente que só aumenta minha dívida com vc, véio!
    Brigadão!
    Demais!
    …é ligeiro!
    Vou copiar e mostrar pra todo mundo!

  2. Ana Cau

    Marcão! Que massa esse conto! Tudo a ver com a música. E que exatidão, hein ? rsrsr.
    Gostei muito. Parabéns!
    “duas lágrimas, sete vidas, três palavras”

  3. Estou arrepiada da cabeça aos pés.

    Você é de outro mundo!! Não existe!

    Um grande beijo cheio de carinho.

    Cris Moura.

  4. Muito bom, Marco. Tem uns traços de Cotidiano e a frase Uns dias exagero na cachaça me lembrou uma música que não sei qual é. Deve ser alguma que vc ainda vai escrever haha.
    Abração

  5. Lindo!!! No conteudo e na forma!!!Parabéns e obrigada outra vez por compartilhar com a gente tanta coisa legal!!!

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